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Coisas de Cunha
Cunha e as manias de Deus
Numa síntese da história de Cunha, Deus sempre isolou a cidade. Agora, reserva uma surpresa....

Pôr de sol em CunhaA era cristã completa dois milênios. O primeiro tropeiro passa pela região onde hoje é Cunha há 350 anos. O município é emancipado politicamente há cerca de um século e meio. E a vida por aqui rola como se tudo isto não tivesse passado. A história de Cunha é engraçada. Quer ver?

 

A origem da cidade (e, depois, a época de grande opulência) foi com a extração do ouro e pedras preciosas, nos séculos XVII e XVIII. Mas Cunha nunca teve ouro e pedras preciosas. Deus resolveu enterrá-las lá do outro lado da Mantiqueira, nas minas gerais. Cunha, entretanto, acolhia e alimentava os homens e fornecia animais para o transporte dos tropeiros que vinham de Paraty e iam para lá se enriquecer.

 

No século XIX e comecinho do século XX também prosperou devido à riqueza do café. O Brasil era o maior produtor mundial, o Estado de São Paulo era responsável por mais de 60% da produção nacional e o Vale do Paraíba era a maior região produtora. Mas Cunha não produzia café. Deus resolveu dar um clima e uma topografia a Cunha incompatíveis com a cultura do café. Cunha, porém, fornecia alimentos às cidades do Vale produtoras de café, já que os homens - ávidos por enriquecer - esqueceram de deixar espaço para plantar comida.

 

Aí veio o começo da industrialização, mas Cunha nunca teve indústria. Deus foi colocar o município fora do eixo principal entre as duas maiores cidades brasileiras, longe da rodovia e da estrada de ferro. Mas Cunha continuava a alimentar as cidades que se enriqueciam com as indústrias, fornecendo feijão, milho, carne de gado e leite. E aí vieram também as grandes indústrias, modernas, multinacionais, as cidades viraram metrópoles, o mundo progrediu, se globalizou e coisas assim. Cunha não cresceu, a população até diminuiu, o progresso não chegou, as pessoas continuam pobres, mas dignas.

 

E agora, no comecinho do século XXI e de um novo milênio, sabe o que Deus fez? Guardou neste cantinho de terra uma grande riqueza, intacta, que as jazidas de ouro não removeram, que as plantações de café não derrubaram, que as indústrias não fizeram sucumbir, que o chamado desenvolvimento das metrópoles não asfixiou. Sabe que riqueza é esta? É a paz, a tranqüilidade, a calma e a liberdade que Deus deixou estocados por aqui em grande quantidade.

 

O cenário deste cantinho é formado por centenas de pequenas montanhas que se espraiam ondulando com mansidão até o horizonte. A própria cidade se esparrama – limpa, silenciosa, calma, bonita – pelas encostas de uma destas colinas. Em seus vales deslizam rios que vão se encachoeirando em quedas que não acabam mais. Os dias são de um céu tão limpo que chega a dar um porre de azul. O pôr-do-sol é de uma serena majestade. As noites são
tão estreladas que a lua chega a brigar com as estrelas por um espaço na escuridão lá de cima.

 

Deus, com esta mania de afastar Cunha de tudo, acabou por deixar aqui só as coisas boas e simples da vida. Deus sabe o que faz, não é mesmo?

 
As torres da igreja de minha cidade
Mais que objeto óbvio das câmeras dos turistas, as torres da Matriz vislumbram a cidade e sua gente....

Igreja MatrizAs torres da igreja da minha cidade abrigam mais que os símbolos óbvios e inevitáveis das fotos dos turistas. Elas são a manjedoura de onde ecoam tristezas e alegrias, esperanças e desesperanças, emitidas pelo som de seus pequenos alto-falantes. São pequenos, mas seus sinais atingem quase toda a cidade. Não por serem muito potentes, mas porque é também pequena a minha cidade.

 

É para as torres da igreja da minha cidade que os ouvidos da gente da minha cidade se esticam para saber o que vai sair dos alto-falantes, assim que um prefixo musical quebra o silêncio dos ares da minha cidade. As pessoas vêm até as portas dos bares, das casas, das lojas, dos escritórios para mirar os ouvidos em direção aos alto-falantes das torres da igreja da minha cidade. Já se sabe de antemão, pela música, que tipo de informação vai ser despejada do alto da colina da praça da igreja da minha cidade: avisos de objetos perdidos, pedidos de colaboração para o recenseamento, informações sobre o alistamento militar, comunicados de desconto no pagamento de impostos atrasados, anúncios de casamentos e mortes. Enfim, coisas da vida.

 

As torres da igreja da minha cidade são pomposas, como pomposas são quase todas as torres das igrejas de centenas de pequenas cidades do meu país. São soberbas, imponentes, e mais imponentes ainda ficam quando encimam as fileiras de bandeirinhas coloridas de papel que anunciam e adornam as festas religiosas, como a do Divino Espírito Santo. E é ali, aos pés das torres da igreja da minha cidade, que desfilam as manifestações da mais pura religiosidade do povo de um lugar, devidamente complementadas com as manifestações profanas. É um verdadeiro circo da cidade do interior, no que um circo pode ter de mais puro e belo.

 

As torres da igreja da minha cidade são vislumbradas de quase todos os cantos da minha cidade, mas elas – com desfaçatez e ao contrário – vislumbram elas próprias a cidade, as casas, os fiéis e infiéis com os amantes e com Deus, e contemplam - em todas as suas nuances - a hipocrisia dos hipócritas, a devoção dos devotos, a amizade dos amigos, a dignidade dos dignos e a indignidade dos indignos, o cinismo dos cínicos, a inconseqüência dos inconseqüentes, o amor dos amantes, o desamor dos sem-alma, o descaso dos bêbados que nem a notam e dormem na calçada a seus pés. As torres da igreja da minha cidade também aninham as andorinhas que pernoitam em algum canto das escadarias de madeira quase apodrecida, na falta de uma aconchegante gruta por detrás da queda das águas de alguma cachoeira.

 

Ia me esquecendo: as torres da igreja da minha cidade também ninam os sinos que anunciam a hora do Ângelus, a hora da missa, a hora da hora e a hora de ter esperanças.

 

Talvez seja por tudo isto que o sol - vindo lá dos mares de Parati e assim que consegue saltar as escarpas da Serra do Mar - a primeira coisa que faz é dar uma lambida nas torres da igreja da minha cidade, onde repousa, como num leve beijo, seus raios, lentamente, de cima para baixo, até atingir as ruas e as casas e contemplar com seu calor e carinho o povo da minha cidade. O sol, às vezes apressadinho, nem dá tempo de a lua se recolher e convive com ela, pacificamente, no mesmo céu. E lá sorriem, serenas e alegres, as torres da igreja da minha cidade, com os seus narizes empinados para o céu. Empinados não de arrogância, mas de uma orgulhosa e serena altivez.

 

As torres da igreja da minha cidade vislumbram, com onisciência, os homens simples, dignos e comuns que são políticos na vida, e os políticos indignos que não são homens na vida. Elas contemplam ainda - com o mesmo carinho e reverência – os que vieram de fora para ficar por opção, em busca de uma perspectiva na vida, e os que nasceram aqui e não podem ficar, pois são obrigados a ir para fora, por absoluta falta de perspectiva na vida, aqui.

 

Ah, a minha cidade é Cunha.

 
Planeta caipira
Tradição que se renova há mais de 250 anos, a Festa do Divino é celebrada como sempre com fé e esperança...

Igreja São José da Boa VistaNem tão moderno como um foguete sideral, nem tão urbano como o Carnaval, o Brasil de contrastes flagrantes e de inocência pueril teima em se mostrar na simplicidade religiosa de seus rincões esquecidos. A cidade de Cunha, por exemplo, encravada em uma esquina esquecida entre as metrópoles de São Paulo e Rio, e as cidades de Guaratinguetá e Parati, perdida na serra do Mar, vive sempre na segunda quinzena de julho (exatamente no terceiro domingo) o seu momento de glória com a esperada Festa do Divino.

 

Festa mesmo, de religiosidade e fervor, de contentamento e abnegação. Pouco importa àquela gente simples que está em um lugarejo ermo, já chamado de cidade morta por Monteiro Lobato nos anos 30. Com a bandeira do Divino eles imaginam estar no centro do universo, num astro de simples felicidade. Eles estão no planeta caipira.

 

A cena seguinte é comum durante a Folia do Divino, que esmola por todas as casas do município meses antes da Festa: um grupo de homens a cavalo passa pela porteira e atravessa o terreiro espantando as galinhas. O dono do sítio deixa a enxada de lado e abandona a roça de feijão. À frente dos tropeiros, o cavaleiro carrega um pequeno cetro, com dezenas de fitas coloridas, encimado por uma espécie de nicho de flores artificiais, onde repousa uma pequena pomba prateada, a materialização de Deus através do Divino Espírito Santo.

 

O sitiante recebe a bandeira e a conduz orgulhoso para dentro de casa. Os cavaleiros apeiam e com duas violas de dez cordas, caixa e triângulo iniciam a cantoria pedindo prendas e bênçãos sobre o sitiante hospitaleiro. Há mais de 250 anos, a Festa do Divino começa assim todo mês de outubro, nove meses antes da apoteose, diante da Matriz. Os tropeiros garbosos visitam, em Cunha, todas as cerca de 5.300 residências do município e as oferendas angariadas (centenas de bezerros, leitoas, milhares de frangos e toneladas de milho) são encaminhadas ao padre, que dá destino a tanta riqueza, distribuindo entre os mais carentes da comunidade.

 

O domingo do Espírito Santo é de longe o mais animado do calendário. Desde a madrugada, quando a "furiosa" (a banda municipal Emílio Núbile) ataca a Alvorada com vigor e chama a população para o início da festa, tocando marchas e desfilando pelas ainda escuras ruas da cidade. Deste momento em diante, até a noite, uma grande parte dos moradores da área urbana e das centenas de bairros rurais que cobrem os 1.440km2 do município, participam das manifestações campais, procissões, rezas e bênçãos que acontecem na cidade, intercaladas com brincadeiras profanas como agarrar a porca ensebada, dançar a congada ou celebrar o Espírito Santo com o mais puro destilado de cana.

 

Para o padrão moralista do passado, uma fusão proibida. Tanto que em 1761, o visitador do Santo Ofício, assustado com os hábitos que presenciara, qualificou os festejos como "escandalosos". O registro está no primeiro livro do Tombo da Matriz de Santo Antônio de Guaratinguetá. A festa foi proibida.

O mesmo ocorreu na década de 20 e novamente entre 1939 e 1944. "Mas não adianta. Quando ela retorna, volta com a mesma fé e a mesma força", explica o padre José Verreschi, 41 anos, ex-pároco da cidade. Até o pastor Osmar Rosa dos Santos, 32 anos, antigo responsável pela Igreja Metodista, bastante avessa à adoração de imagens, respeita a religiosidade popular: "A gente trabalha para o bem povo. Pouco importa que tipo de piano ele toca".

 

E entre as danças da congada e moçambique, herança viva do sincretismo dos escravos, os habitantes da cidade de Cunha celebram a sua religiosidade com um almoço para cerca de 10 mil pessoas. Um "afogadão" preparado e servido por cerca de 100 voluntários, que preparam feijão, arroz, carne, batata e macarrão. "Tenho promessa de trabalhar para o Divino para ver se saro da diabete e se meu filho melhora da dorna coluna", justifica Idalina Anselma, nada menos que 78 anos de idade e a fé derramada no futuro.

 

Entre os jovens, pouco importa se eles se atrapalham com os bastões que desenvolvem o ritmo, símbolo do combate entre cristãos e mouros, ou com os olhos vendados tentam acertar com um pedaço de pau um pote de barro dependurado, ou ainda se estatelam no chão para agarrar uma porca solta na praça com o corpo ensebado. Tudo é uma santa alegria que só termina quando os andores dos santos padroeiros dos bairros rurais irrompem na procissão que sobe a ladeira em direção à Matriz. Homens, mulheres e crianças carregam nas mãos o que de melhor possuem em casa e no trabalho. No coração, o desejo de um sonho cumprido. Vale tudo: pés de cana com folhagem, galhos de uma ameixeira carregada, pratos com alface, cenoura, repolho, pães e bolos. O sol do crepúsculo garante que o Divino ilumina a todos. Ilumina o planeta caipira.

 

A fé de dona Coração

 

Os 73 anos de Felizina Coração Teixeira não lhe arrancaram a energia de descer as ladeiras de Cunha abraçada à sua bandeira do Divino. O coração, que o sobrenome já carrega, bate acelerado e se enche de força para chegar à igreja do Rosário. É de lá que sai a procissão rumo à missa campal de encerramento que essa ex-parteira não perde desde moça. No meio da multidão colorida e animada, ela traz a fé estampada nos olhos quase escondidos pelas rugas. Sua crença não precisa de sisudez. Para a velha parteira, o último dia da Festa do Divino deve ser sempre uma mistura harmoniosa de descontração e testemunho. "Festa do Espírito Santo é de alegria", ela ensina.

 

Nascida em Sertão da Vargem Grande, lugarejo perto de Cunha, Felizina perdeu a conta de quantas crianças ajudou a nascer durante 40 anos. Orgulhosa da bandeira que ganhou há quatro anos de um padre, não admite pendurar nela fotos ou fios de cabelos, e a dar nós nas fitas para pedir saúde para os parentes doentes. "Dou meu testemunho com o amor. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo até a eternidade e mesmo depois dela". Dona coração segue o cortejo.

 
Entre a enxada e o violão
As aventuras e desventuras de uma dupla caipira de Cunha. E um pouco da cultura musical do município...

Raul e SimeiTem gente que bate na mesma tecla por pura teimosia. Tem gente que bate na mesma tecla por convicção. Uma teimosa convicção. E esta convicção vem da paixão em insistir na mesma tecla pela certeza de que ela é que dá o tom do prazer na vida, mesmo que o processo seja penoso. É o que acontece com a dupla caipira Mauro Santos e Donizeti. Batem na mesma tecla, ou melhor, nas mesmas cordas, desde que se conhecem por gente. Cordas que dedilham, às vezes, com os dedos endurecidos pelo trabalho com a enxada, que lhes dá apenas o prazer da sobrevivência. Mas o prazer da vivência mesmo é com o violão, a cantoria, a música.

 

Foi assim desde meninos. Brincavam com um sabugo de milho fazendo as vezes de viola, espalmando as cordas imaginárias com os dedos e fazendo o som da viola com a boca. Peraltices. Mais crescidinhos, mas ainda moleques, aprimoraram a técnica, esticando linhas de pesca em um pedaço de tábua rachado nas pontas. Aí já saia um sonzinho de taquara rachada. Mas sonzinho. De lá pra cá, já fizeram de tudo para exercer apenas o ofício que mais gostam. Até gravaram um long-play.

 

A caminhada tem sido dura, cheia de percalços, desilusões. Mas não desistem. Trabalham pesado na roça e, sempre que têm uma oportunidade, lá estão cantando. Em troca de um dinheirinho e muita satisfação. E sonham um dia trocar, definitivamente, a enxada pelo violão.

 

Para isto, enfrentaram de tudo. Primeiro, quando crianças, a ira do pai, seo Benedito Rosa Filho, neto de escravos e filho de tropeiro, que achava isto bobagem e perda de tempo. Irritava-se quando o descanso do trabalho árduo na roça do Sertão do Ingá era interrompido pela cantoria e pelo blém-blém-blém da molecada na viola improvisada com linha de pesca. Afinal, era dura e cansativa a lida diária do pai com o plantio de milho, feijão, batata e com a criação de galinhas e porcos, tudo para subsistência. E ainda tinha que ir a cavalo até a cidade comprar arroz e feijão, com o pouco dinheiro que conseguia com as sobras da produção e com a pequena aposentadoria que retirava no banco. Não tinha lá muita paciência com a mania dos filhos pela música.

 

Mauro Santos, 33 anos, e Raul Donizeti Rosa, 43, viveram lá no sertão e só foram conhecer a cidade de Cunha, a uns 20 quilômetros de distância, no início da adolescência. Raul calçou o primeiro sapato aos 16 anos. Mauro só foi comprar roupa aos 19: "Antes a gente vestia só o que davam. Chegamos a passar fome. A gente comia feijão com sal". Já adolescentes, foram trabalhar como diaristas ou meeiros em outras roças. Mauro até tentou a vida em São

Paulo como ajudante geral em uma fábrica de papel, mas teve que voltar: "A gente não tem estudo bom, então voltei. A vida lá também era muito difícil". Hoje trabalha como peão em Parati, "trabalho pesado de arar terra, uma hora prum lado, outra hora pra outro". Raul é caseiro de um sítio no Sertão do Rio Manso.

 

Nestas idas e vindas da adolescência, namoravam violões nas vitrines das lojas. Até que compraram um violão "bem velhinho" de um primo que também retornara de São Paulo: "A gente sempre tinha vontade de sair por aí pra cantar". E começaram a tocar em festinhas na roça, em botequins, em outros lugares. Saiam a pé do Sertão do Ingá, passavam pelo Sertão do Rio Manso até o bairro do Taboão, pegavam o asfalto, caiam em Cunha e, de lá, de ônibus para Guaratinguetá: "Às vezes chovia e estragava tudo o violão". No retorno de Guará, era comum acontecer de não ter mais ônibus para voltar pelo menos até o meio do caminho da roça. Dormiam em bancos na praça ou dentro de um carro velho: "Antes de amanhecer o dia, a gente pulava fora para o dono não achar ruim". Quando ganhavam um pequeno cachê, aproveitavam para comprar alimento.

 

Tocando a vida e o violão

 

Foi então que, num belo dia de final dos anos 80, surgiu a oportunidade dos sonhos. Depois de cantar em duas festas da roça, foram convidados para tocar no rádio. Eles agradaram e passaram a se apresentar em emissoras de Guaratinguetá, Cachoeira Paulista, Aparecida e Ubatuba. E logo surgiu a proposta que mais esperavam: a gravação de um disco: "A gente tinha vontade de gravar e pensava que se gravasse um disco entrava no sucesso". E lá foram eles, felizes. Precisavam pagar a produção do disco. Pediram emprestado e não conseguiram.

 

Então, venderam tudo o que tinham (15 cabeças de gado) para pagar os mil discos gravados. Não receberam o dinheiro do gado: "As pessoas pagavam picadinho". O produtor pegou uma parte dos discos para fazer a divulgação. Não fez e sumiu. Deram com os burros na água. Saíram vendendo disco de porta em porta para pagar a dívida. Foram tentar divulgar o disco até na rádio Globo em São Paulo. Não passaram da portaria. "Deu tudo em nada. Ficamos até envergonhados. A gente não parou porque gosta muito. Nóis toca porque nóis gosta, é prazer. A gente luta pra subir na vida, mas é difícil". Não importa a qualidade da gravação, nem importa mesmo o erro de português no título do disco "Seção de Beijos" (ao invés do correto Sessão). O que importa é o que importa.

 

Hoje, quando surge oportunidade, tocam em aniversários na roça, em algum show local, em festas beneficentes, em uma ou outra pousada. Como o trabalho na roça é muito e sempre, eles praticamente ensaiam apenas quando são convidados para tocar. Quando alguém lhes apresenta uma música nova (como aconteceu agora com um CD que ganharam de Pena Branca e Xavantinho), eles ouvem a música em casa para pegar a melodia, escrevem a letra em um pedaço de papel e, nos pequenos intervalos do trabalho da roça, tiram o papel do bolso da calça e vão cantarolando a letra, para memorizá-la: "Quando a gente fica muito tempo só trabalhando na roça, o serviço pesado com a enxada e o arado faz os dedos ficarem duros. Quando a gente só toca, o dedo fica mais rápido", argumenta Mauro.

 

E assim vão tocando a vida e o violão. Com um copinho de conhaque ao lado, são capazes de animar uma festa por 3, 4 horas sem parar. Gostam muito de Tonico e Tinoco, Tião Carreiro e Pardinho, Milionário e Zé Rico. Chegam a emocionar quem os ouve em algumas canções, como a Homenagem a Cunha de Tião das Almas.

 

"A gente toca por compromisso", diz Mauro. Meu irmão Domingos entra na conversa e diz, emocionado: "Vocês tem compromisso é com a humildade e a dignidade". Mauro, um homenzarrão forte e musculoso, fica com os olhos marejados como os de uma criança e deixa rolar uma lágrima. Lágrima que simboliza a sobrevivência da emoção e do sentimento de quem vive a arte. Por esta razão, batem na mesma tecla desde a infância, com convicção.

 
Besteiradas
Homem simples e rude do campo se assusta com as emoções que brotam do coração...

Pôr-do-sol em CunhaSabe moço, acontecem uns trecos estranhos de vez em quando. Dá um arrepio assim pelo meio do fígado, da espinha, a pele fica toda carangada que nem frango depenado, os olhos fica cheio de água que até a vista se atrapalha, como fala aquela música.

 

Agorinha mesmo, tava lá no banco pra receber a aposentadoria, uma fila danada de gente da roça se atrapalhando neste tal cartão do caixa eletrônico (que nem eu), e os alto-falante lá da igreja começaram a tocar uma música, muito bonita, assim de ave-maria, e deu aquilo que falei lá no começo, o arrepio, pele pipocando que nem galinha depenada. E deu mais: os pelo do corpo se eriçando feito pelo de cachorro quando está brigando com outro.

 

É um negócio muito estranho. A fila não andava, gente catucando o cartão no buraco da máquina e não dava certo, o Heitor, empregado do banco, ajudando todo mundo a colocar o cartão, a batucar a tal de senha. Ele sabe direitinho porque já está nesta lida há muito tempo e ganha pra isso. Muito bonzinho aquele moço. Então, eu ali meio ansioso pra pegar o dinheiro e ir logo pagando o fiado lá do mercado que o dono disse que só faz outro depois deste pago. Foi quando os sinos começaram a pipocar, depois da ave-maria, e me dava a sensação que cada badalada despejava pingos de significado na minha existência. Era bom, uma coisa benfazeja. E os olhos começaram a arremedar uma lágrima como um pequeno olho-d’água brotando no chão seco. Deu um nozinho assim na garganta. Não é mentira, não. Pior que é verdade.

 

Sabe moço, não foi a primeira vez. E a gente pode estar fazendo coisas que não tem nada a ver. Pode estar na fila do banco, no balcão do açougue. Acontece assim sem querer e, com perdão da palavra, a gente pode estar até no banheiro e a coisa vem. Outro dia mesmo tava passando lá na praça, era fim de tarde, e um montão de passarinhada cantando tudo junto, fazendo um barulho danado nas copa das árvore e a gente não via nenhum. Só o som. E pronto: o arrepio, a pele carangou, os olhos assim meio marejou. E aquela sinfonia toda me passava pela cabeça como um imenso formigueiro invisível de sons. E toca lá os olho marejar de novo.

 

Engraçado, antes não dava isto. Agora, acontece até com enterro. Pode ser de gente desconhecida ou conhecida. Quando sai o caixão da igreja carregado por quatro homens, as pessoas caminhando atrás, de cabeça baixa, todo mundo a pé até o cemitério, às vezes um pouquinho de gente, outras um montão. Depende do morto. Mas depende não é de o morto ser rico ou poderoso, não. Depende da importância. Ás vezes tem enterro de gente que não é fraca, não, e tem pouca gente, e enterro de pobre com muita gente. Depende da importância, mesmo, porque uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.

 

Mas sempre os enterro é a pé, do jeito que é todo enterro aqui na cidade, os carros parando nas esquinas ou na frente do cortejo quando vêm em sentido contrário, em respeito. Os bares, as lojas, tudo que é estabelecimento arreando as portas na passagem daquela procissão de gente entristecida. Dá uma tristeza e uma alegria, uma emoção assim pelo respeito que uns tem pelos outros, e o danado do nozinho na garganta volta, os olhos daquele jeito, a pele daquele jeito.

 

Estes trecos estranho não acontecia antes, como já disse. Até na Cavalaria de São Benedito, que sempre participei e agora fico só olhando, deu de acontecer o sucedido. Hoje paro ali em frente à Matriz e fico só observando aquela belezura, os cavalo tudo enfeitado, as moças bem arrumadinha, de batom, os homens de chapéu e roupa bonita. Cada um que passa ainda ontem era umas criança, tudo filho de compadre, de parente, de gente chegada lá da roça, que nem quero falar os nome porque aí uns vão dizer isto, outros aquilo, sabe como é, né?

 

Mas vejo os moços que vão passando tudo em cada cavalo bonito e que conheci ainda pequeno e hoje tudo homem forte já com os pelo de barba saltando por cima da cara e as meninas que carreguei no colo agora já com os peito saltando por baixo das blusa, com perdão da palavra. Na Festa do Divino é a mesma coisa: é bonito ver aquele eito de gente na fila pra comer o afogadão, ou na Casa do Império, ou na missa, ou no ofertório. É muito bonito e dá aquilo que falei e não vou falar mais.

 

Até com este pôr-do-sol que estou vendo aqui do meio do pasto, nessa horinha de enrolação que estou fazendo, dá aquilo que eu disse que não ia falar mais. O pasto desce montanha abaixo até a beira da estrada, mas olhando direto lá pra frente tá um amarelado no horizonte, meio misturado com vermelho, azul, as cores todas por ciminha das montanhas e umas nuvem assim fazendo uns desenho que vai mudando. E os topezinho das estrada nos bico das colina quase raspando o céu, um ou outro carro levantando umas nuvem de poeira assim marrom quase que misturando com as outras cores das nuvem de verdade.

 

Viche, dá pra ver que o carro que vem levantando poeira agora é o do patrão. Ele é um homem muito forte, tem muita prata e influência e fica macho quando enrolo o trabalho. Então, deixa eu levantar, pegar o penado e ver se termino o roçado rápido. Não é só porque o patrão está chegando não. É porque também a belezura do pôr-do-sol está dando de novo esta desgraça do arrepio que corre pelo corpo, da pele que caranga, da garganta que acocha.

 

É verdade mesmo, eu não uso brincar com estas coisa. Mas engraçado: isto não dava antes, como já disse uns montão de vez. Dei de pegar esta barda de uns tempinhos pra cá. Não é coisa de homem. Não sei se estou ficando frouxo, ficando velho, não sei. É melhor pinchar fora estas idéias. Deixa eu tocar o trabalho e deixar estas besteiradas pra lá, santo Deus, que os olhos estão começando a ficar molhado de novo só pela belezura do pôr-do-sol. Eu não tenho soberba, não. Mas que tudo isto é umas besteirada mesmo, Virgem Nossa Senhora, isto é.

 
Textos do jornalista Cláudio Faviere (in memoriam).
 
 
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