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A origem da cidade (e, depois, a época de grande opulência) foi com a extração do ouro e pedras preciosas, nos séculos XVII e XVIII. Mas Cunha nunca teve ouro e pedras preciosas. Deus resolveu enterrá-las lá do outro lado da Mantiqueira, nas minas gerais. Cunha, entretanto, acolhia e alimentava os homens e fornecia animais para o transporte dos tropeiros que vinham de Paraty e iam para lá se enriquecer. No século XIX e comecinho do século XX também prosperou devido à riqueza do café. O Brasil era o maior produtor mundial, o Estado de São Paulo era responsável por mais de 60% da produção nacional e o Vale do Paraíba era a maior região produtora. Mas Cunha não produzia café. Deus resolveu dar um clima e uma topografia a Cunha incompatíveis com a cultura do café. Cunha, porém, fornecia alimentos às cidades do Vale produtoras de café, já que os homens - ávidos por enriquecer - esqueceram de deixar espaço para plantar comida. Aí veio o começo da industrialização, mas Cunha nunca teve indústria. Deus foi colocar o município fora do eixo principal entre as duas maiores cidades brasileiras, longe da rodovia e da estrada de ferro. Mas Cunha continuava a alimentar as cidades que se enriqueciam com as indústrias, fornecendo feijão, milho, carne de gado e leite. E aí vieram também as grandes indústrias, modernas, multinacionais, as cidades viraram metrópoles, o mundo progrediu, se globalizou e coisas assim. Cunha não cresceu, a população até diminuiu, o progresso não chegou, as pessoas continuam pobres, mas dignas. E agora, no comecinho do século XXI e de um novo milênio, sabe o que Deus fez? Guardou neste cantinho de terra uma grande riqueza, intacta, que as jazidas de ouro não removeram, que as plantações de café não derrubaram, que as indústrias não fizeram sucumbir, que o chamado desenvolvimento das metrópoles não asfixiou. Sabe que riqueza é esta? É a paz, a tranqüilidade, a calma e a liberdade que Deus deixou estocados por aqui em grande quantidade. O cenário deste cantinho é formado por centenas de pequenas
montanhas que se espraiam ondulando com mansidão até o
horizonte. A própria cidade se
esparrama – limpa, silenciosa, calma, bonita – pelas encostas
de uma destas colinas. Em seus vales deslizam rios que vão se
encachoeirando em quedas que não acabam mais. Os dias são
de um céu tão limpo que chega a dar um porre
de azul. O pôr-do-sol é de uma serena majestade. As noites
são Deus, com esta mania de afastar Cunha de tudo, acabou por deixar aqui só as coisas boas e simples da vida. Deus sabe o que faz, não é mesmo? |