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As torres da igreja de minha cidade

Igreja MatrizAs torres da igreja da minha cidade abrigam mais que os símbolos óbvios e inevitáveis das fotos dos turistas. Elas são a manjedoura de onde ecoam tristezas e alegrias, esperanças e desesperanças, emitidas pelo som de seus pequenos alto-falantes. São pequenos, mas seus sinais atingem quase toda a cidade. Não por serem muito potentes, mas porque é também pequena a minha cidade.

É para as torres da igreja da minha cidade que os ouvidos da gente da minha cidade se esticam para saber o que vai sair dos alto-falantes, assim que um prefixo musical quebra o silêncio dos ares da minha cidade. As pessoas vêm até as portas dos bares, das casas, das lojas, dos escritórios para mirar os ouvidos em direção aos alto-falantes das torres da igreja da minha cidade. Já se sabe de antemão, pela música, que tipo de informação vai ser despejada do alto da colina da praça da igreja da minha cidade: avisos de objetos perdidos, pedidos de colaboração para o recenseamento, informações sobre o alistamento militar, comunicados de desconto no pagamento de impostos atrasados, anúncios de casamentos e mortes. Enfim, coisas da vida.

As torres da igreja da minha cidade são pomposas, como pomposas são quase todas as torres das igrejas de centenas de pequenas cidades do meu país. São soberbas, imponentes, e mais imponentes ainda ficam quando encimam as fileiras de bandeirinhas coloridas de papel que anunciam e adornam as festas religiosas, como a do Divino Espírito Santo. E é ali, aos pés das torres da igreja da minha cidade, que desfilam as manifestações da mais pura religiosidade do povo de um lugar, devidamente complementadas com as manifestações profanas. É um verdadeiro circo da cidade do interior, no que um circo pode ter de mais puro e belo.

As torres da igreja da minha cidade são vislumbradas de quase todos os cantos da minha cidade, mas elas – com desfaçatez e ao contrário – vislumbram elas próprias a cidade, as casas, os fiéis e infiéis com os amantes e com Deus, e contemplam - em todas as suas nuances - a hipocrisia dos hipócritas, a devoção dos devotos, a amizade dos amigos, a dignidade dos dignos e a indignidade dos indignos, o cinismo dos cínicos, a inconseqüência dos inconseqüentes, o amor dos amantes, o desamor dos sem-alma, o descaso dos bêbados que nem a notam e dormem na calçada a seus pés. As torres da igreja da minha cidade também aninham as andorinhas que pernoitam em algum canto das escadarias de madeira quase apodrecida, na falta de uma aconchegante gruta por detrás da queda das águas de alguma cachoeira.

Ia me esquecendo: as torres da igreja da minha cidade também ninam os sinos que anunciam a hora do Ângelus, a hora da missa, a hora da hora e a hora de ter esperanças.

Talvez seja por tudo isto que o sol - vindo lá dos mares de Parati e assim que consegue saltar as escarpas da Serra do Mar - a primeira coisa que faz é dar uma lambida nas torres da igreja da minha cidade, onde repousa, como num leve beijo, seus raios, lentamente, de cima para baixo, até atingir as ruas e as casas e contemplar com seu calor e carinho o povo da minha cidade. O sol, às vezes apressadinho, nem dá tempo de a lua se recolher e convive com ela, pacificamente, no mesmo céu. E lá sorriem, serenas e alegres, as torres da igreja da minha cidade, com os seus narizes empinados para o céu. Empinados não de arrogância, mas de uma orgulhosa e serena altivez.

As torres da igreja da minha cidade vislumbram, com onisciência, os homens simples, dignos e comuns que são políticos na vida, e os políticos indignos que não são homens na vida. Elas contemplam ainda - com o mesmo carinho e reverência – os que vieram de fora para ficar por opção, em busca de uma perspectiva na vida, e os que nasceram aqui e não podem ficar, pois são obrigados a ir para fora, por absoluta falta de perspectiva na vida, aqui.

Ah, a minha cidade é Cunha.

 
Texto do jornalista Cláudio Faviere proprietário da Pousada Vale das Cachoeiras.
 
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