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Entre a enxada e o violão

Raul e SimeiTem gente que bate na mesma tecla por pura teimosia. Tem gente que bate na mesma tecla por convicção. Uma teimosa convicção. E esta convicção vem da paixão em insistir na mesma tecla pela certeza de que ela é que dá o tom do prazer na vida, mesmo que o processo seja penoso. É o que acontece com a dupla caipira Mauro Santos e Donizeti. Batem na mesma tecla, ou melhor, nas mesmas cordas, desde que se conhecem por gente. Cordas que dedilham, às vezes, com os dedos endurecidos pelo trabalho com a enxada, que lhes dá apenas o prazer da sobrevivência. Mas o prazer da vivência mesmo é com o violão, a cantoria, a música.

Foi assim desde meninos. Brincavam com um sabugo de milho fazendo as vezes de viola, espalmando as cordas imaginárias com os dedos e fazendo o som da viola com a boca. Peraltices. Mais crescidinhos, mas ainda moleques, aprimoraram a técnica, esticando linhas de pesca em um pedaço de tábua rachado nas pontas. Aí já saia um sonzinho de taquara rachada. Mas sonzinho. De lá pra cá, já fizeram de tudo para exercer apenas o ofício que mais gostam. Até gravaram um long-play.

A caminhada tem sido dura, cheia de percalços, desilusões. Mas não desistem. Trabalham pesado na roça e, sempre que têm uma oportunidade, lá estão cantando. Em troca de um dinheirinho e muita satisfação. E sonham um dia trocar, definitivamente, a enxada pelo violão.

Para isto, enfrentaram de tudo. Primeiro, quando crianças, a ira do pai, seo Benedito Rosa Filho, neto de escravos e filho de tropeiro, que achava isto bobagem e perda de tempo. Irritava-se quando o descanso do trabalho árduo na roça do Sertão do Ingá era interrompido pela cantoria e pelo blém-blém-blém da molecada na viola improvisada com linha de pesca. Afinal, era dura e cansativa a lida diária do pai com o plantio de milho, feijão, batata e com a criação de galinhas e porcos, tudo para subsistência. E ainda tinha que ir a cavalo até a cidade comprar arroz e feijão, com o pouco dinheiro que conseguia com as sobras da produção e com a pequena aposentadoria que retirava no banco. Não tinha lá muita paciência com a mania dos filhos pela música.

Mauro Santos, 33 anos, e Raul Donizeti Rosa, 43, viveram lá no sertão e só foram conhecer a cidade de Cunha, a uns 20 quilômetros de distância, no início da adolescência. Raul calçou o primeiro sapato aos 16 anos. Mauro só foi comprar roupa aos 19: "Antes a gente vestia só o que davam. Chegamos a passar fome. A gente comia feijão com sal". Já adolescentes, foram trabalhar como diaristas ou meeiros em outras roças. Mauro até tentou a vida em São

Paulo como ajudante geral em uma fábrica de papel, mas teve que voltar: "A gente não tem estudo bom, então voltei. A vida lá também era muito difícil". Hoje trabalha como peão em Parati, "trabalho pesado de arar terra, uma hora prum lado, outra hora pra outro". Raul é caseiro de um sítio no Sertão do Rio Manso.

Nestas idas e vindas da adolescência, namoravam violões nas vitrines das lojas. Até que compraram um violão "bem velhinho" de um primo que também retornara de São Paulo: "A gente sempre tinha vontade de sair por aí pra cantar". E começaram a tocar em festinhas na roça, em botequins, em outros lugares. Saiam a pé do Sertão do Ingá, passavam pelo Sertão do Rio Manso até o bairro do Taboão, pegavam o asfalto, caiam em Cunha e, de lá, de ônibus para Guaratinguetá: "Às vezes chovia e estragava tudo o violão". No retorno de Guará, era comum acontecer de não ter mais ônibus para voltar pelo menos até o meio do caminho da roça. Dormiam em bancos na praça ou dentro de um carro velho: "Antes de amanhecer o dia, a gente pulava fora para o dono não achar ruim". Quando ganhavam um pequeno cachê, aproveitavam para comprar alimento.

Tocando a vida e o violão

Foi então que, num belo dia de final dos anos 80, surgiu a oportunidade dos sonhos. Depois de cantar em duas festas da roça, foram convidados para tocar no rádio. Eles agradaram e passaram a se apresentar em emissoras de Guaratinguetá, Cachoeira Paulista, Aparecida e Ubatuba. E logo surgiu a proposta que mais esperavam: a gravação de um disco: "A gente tinha vontade de gravar e pensava que se gravasse um disco entrava no sucesso". E lá foram eles, felizes. Precisavam pagar a produção do disco. Pediram emprestado e não conseguiram. Então, venderam tudo o que tinham (15 cabeças de gado) para pagar os mil discos gravados. Não receberam o dinheiro do gado: "As pessoas pagavam picadinho". O produtor pegou uma parte dos discos para fazer a divulgação. Não fez e sumiu. Deram com os burros na água. Saíram vendendo disco de porta em porta para pagar a dívida. Foram tentar divulgar o disco até na rádio Globo em São Paulo. Não passaram da portaria. "Deu tudo em nada. Ficamos até envergonhados. A gente não parou porque gosta muito. Nóis toca porque nóis gosta, é prazer. A gente luta pra subir na vida, mas é difícil". Não importa a qualidade da gravação, nem importa mesmo o erro de português no título do disco "Seção de Beijos" (ao invés do correto Sessão). O que importa é o que importa.

Hoje, quando surge oportunidade, tocam em aniversários na roça, em algum show local, em festas beneficentes, em uma ou outra pousada. Como o trabalho na roça é muito e sempre, eles praticamente ensaiam apenas quando são convidados para tocar. Quando alguém lhes apresenta uma música nova (como aconteceu agora com um CD que ganharam de Pena Branca e Xavantinho), eles ouvem a música em casa para pegar a melodia, escrevem a letra em um pedaço de papel e, nos pequenos intervalos do trabalho da roça, tiram o papel do bolso da calça e vão cantarolando a letra, para memorizá-la: "Quando a gente fica muito tempo só trabalhando na roça, o serviço pesado com a enxada e o arado faz os dedos ficarem duros. Quando a gente só toca, o dedo fica mais rápido", argumenta Mauro.

E assim vão tocando a vida e o violão. Com um copinho de conhaque ao lado, são capazes de animar uma festa por 3, 4 horas sem parar. Gostam muito de Tonico e Tinoco, Tião Carreiro e Pardinho, Milionário e Zé Rico. Chegam a emocionar quem os ouve em algumas canções, como a Homenagem a Cunha de Tião das Almas.

"A gente toca por compromisso", diz Mauro. Meu irmão Domingos entra na conversa e diz, emocionado: "Vocês tem compromisso é com a humildade e a dignidade". Mauro, um homenzarrão forte e musculoso, fica com os olhos marejados como os de uma criança e deixa rolar uma lágrima. Lágrima que simboliza a sobrevivência da emoção e do sentimento de quem vive a arte. Por esta razão, batem na mesma tecla desde a infância, com convicção.

 
Texto do jornalista Cláudio Faviere proprietário da Pousada Vale das Cachoeiras.
 
Besteiradas...