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Pôr-do-sol em CunhaSabe moço, acontecem uns trecos estranhos de vez em quando. Dá um arrepio assim pelo meio do fígado, da espinha, a pele fica toda carangada que nem frango depenado, os olhos fica cheio de água que até a vista se atrapalha, como fala aquela música.

Agorinha mesmo, tava lá no banco pra receber a aposentadoria, uma fila danada de gente da roça se atrapalhando neste tal cartão do caixa eletrônico (que nem eu), e os alto-falante lá da igreja começaram a tocar uma música, muito bonita, assim de ave-maria, e deu aquilo que falei lá no começo, o arrepio, pele pipocando que nem galinha depenada. E deu mais: os pelo do corpo se eriçando feito pelo de cachorro quando está brigando com outro.

É um negócio muito estranho. A fila não andava, gente catucando o cartão no buraco da máquina e não dava certo, o Heitor, empregado do banco, ajudando todo mundo a colocar o cartão, a batucar a tal de senha. Ele sabe direitinho porque já está nesta lida há muito tempo e ganha pra isso. Muito bonzinho aquele moço. Então, eu ali meio ansioso pra pegar o dinheiro e ir logo pagando o fiado lá do mercado que o dono disse que só faz outro depois deste pago. Foi quando os sinos começaram a pipocar, depois da ave-maria, e me dava a sensação que cada badalada despejava pingos de significado na minha existência. Era bom, uma coisa benfazeja. E os olhos começaram a arremedar uma lágrima como um pequeno olho-d’água brotando no chão seco. Deu um nozinho assim na garganta. Não é mentira, não. Pior que é verdade.

Sabe moço, não foi a primeira vez. E a gente pode estar fazendo coisas que não tem nada a ver. Pode estar na fila do banco, no balcão do açougue. Acontece assim sem querer e, com perdão da palavra, a gente pode estar até no banheiro e a coisa vem. Outro dia mesmo tava passando lá na praça, era fim de tarde, e um montão de passarinhada cantando tudo junto, fazendo um barulho danado nas copa das árvore e a gente não via nenhum. Só o som. E pronto: o arrepio, a pele carangou, os olhos assim meio marejou. E aquela sinfonia toda me passava pela cabeça como um imenso formigueiro invisível de sons. E toca lá os olho marejar de novo.

Engraçado, antes não dava isto. Agora, acontece até com enterro. Pode ser de gente desconhecida ou conhecida. Quando sai o caixão da igreja carregado por quatro homens, as pessoas caminhando atrás, de cabeça baixa, todo mundo a pé até o cemitério, às vezes um pouquinho de gente, outras um montão. Depende do morto. Mas depende não é de o morto ser rico ou poderoso, não. Depende da importância. Ás vezes tem enterro de gente que não é fraca, não, e tem pouca gente, e enterro de pobre com muita gente. Depende da importância, mesmo, porque uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.

Mas sempre os enterro é a pé, do jeito que é todo enterro aqui na cidade, os carros parando nas esquinas ou na frente do cortejo quando vêm em sentido contrário, em respeito. Os bares, as lojas, tudo que é estabelecimento arreando as portas na passagem daquela procissão de gente entristecida. Dá uma tristeza e uma alegria, uma emoção assim pelo respeito que uns tem pelos outros, e o danado do nozinho na garganta volta, os olhos daquele jeito, a pele daquele jeito.

Estes trecos estranho não acontecia antes, como já disse. Até na Cavalaria de São Benedito, que sempre participei e agora fico só olhando, deu de acontecer o sucedido. Hoje paro ali em frente à Matriz e fico só observando aquela belezura, os cavalo tudo enfeitado, as moças bem arrumadinha, de batom, os homens de chapéu e roupa bonita. Cada um que passa ainda ontem era umas criança, tudo filho de compadre, de parente, de gente chegada lá da roça, que nem quero falar os nome porque aí uns vão dizer isto, outros aquilo, sabe como é, né?

Mas vejo os moços que vão passando tudo em cada cavalo bonito e que conheci ainda pequeno e hoje tudo homem forte já com os pelo de barba saltando por cima da cara e as meninas que carreguei no colo agora já com os peito saltando por baixo das blusa, com perdão da palavra. Na Festa do Divino é a mesma coisa: é bonito ver aquele eito de gente na fila pra comer o afogadão, ou na Casa do Império, ou na missa, ou no ofertório. É muito bonito e dá aquilo que falei e não vou falar mais.

Até com este pôr-do-sol que estou vendo aqui do meio do pasto, nessa horinha de enrolação que estou fazendo, dá aquilo que eu disse que não ia falar mais. O pasto desce montanha abaixo até a beira da estrada, mas olhando direto lá pra frente tá um amarelado no horizonte, meio misturado com vermelho, azul, as cores todas por ciminha das montanhas e umas nuvem assim fazendo uns desenho que vai mudando. E os topezinho das estrada nos bico das colina quase raspando o céu, um ou outro carro levantando umas nuvem de poeira assim marrom quase que misturando com as outras cores das nuvem de verdade.

Viche, dá pra ver que o carro que vem levantando poeira agora é o do patrão. Ele é um homem muito forte, tem muita prata e influência e fica macho quando enrolo o trabalho. Então, deixa eu levantar, pegar o penado e ver se termino o roçado rápido. Não é só porque o patrão está chegando não. É porque também a belezura do pôr-do-sol está dando de novo esta desgraça do arrepio que corre pelo corpo, da pele que caranga, da garganta que acocha.

É verdade mesmo, eu não uso brincar com estas coisa. Mas engraçado: isto não dava antes, como já disse uns montão de vez. Dei de pegar esta barda de uns tempinhos pra cá. Não é coisa de homem. Não sei se estou ficando frouxo, ficando velho, não sei. É melhor pinchar fora estas idéias. Deixa eu tocar o trabalho e deixar estas besteiradas pra lá, santo Deus, que os olhos estão começando a ficar molhado de novo só pela belezura do pôr-do-sol. Eu não tenho soberba, não. Mas que tudo isto é umas besteirada mesmo, Virgem Nossa Senhora, isto é.

 
Texto do jornalista Cláudio Faviere proprietário da Pousada Vale das Cachoeiras.
 
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